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Tovarich Silva
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Comentário · há 11 anos
Deus, a verdade e o homem

Escrito por Leonardo Bruno | 04 Janeiro 2013
Artigos - Cultura

Não é espantoso observar que as filosofias modernas, ainda que prometam a liberdade, neguem o indivíduo?

Ao perder a fé em Deus e Jesus Cristo, o Ocidente não está apenas se degenerando. Está literalmente enlouquecendo.

Dentre tantas questões da nossa época, encontradas na filosofia e em muitas perspectivas políticas, há três grandes revoltas da modernidade: a revolta contra Deus; a revolta contra a verdade; e a revolta contra o homem.

Revela-se no Ocidente a revolta contra Deus. As ideologias políticas e certas escolas filosóficas excluem Deus da história e do universo moral, político, ético e existencial do homem. O elemento da moda difundida nas universidades, na mídia e na opinião pública em geral é o materialismo e o ateísmo. Nestas teorias, o homem não precisa mais da realidade transcendente. Ele se basta a si mesmo.

A velha Europa destronou o fundamento histórico, moral e simbólico do Cristianismo nas instituições. Grupos fanáticos de militantes secularistas e esquerdistas se revoltam contra símbolos religiosos e contra a imagem maior da cruz em várias nações do mundo. A manifestação da fé cristã é hostilizada e marginalizada, senão criminalizada. Na Suécia chegou-se ao cúmulo de falar do Natal nas escolas excluindo o nome de Jesus Cristo. O nome do menino Jesus incomoda muitos. Na lógica deles, a religião deve ser extirpada da vida pública. O único mundo a ser valorizado é o terreno, o material, o temporal.

Por outro lado, há o sacrifício da verdade. É um lugar comum afirmar que a verdade não mais existe. Ou que ela é uma ilusão dos filósofos antigos e medievais. Há, ainda, pessoas que afirmam ser a verdade "intolerante", geradora de ódios e fanatismos. Em nome da tolerância, que tal abolir a idéia da verdade? Cada pessoa terá sua idéia, sua moral e seu fundamento e ninguém incomodará a outra com seus pensamentos. O relativismo, contraditoriamente, é o dogma da modernidade, a falsa verdade absoluta disfarçada de negação de todas as verdades.

Por fim, o homem é diminuído. As filosofias que negam a existência de Deus e da verdade, negam também a dignidade humana. A sacralidade da vida humana é relativizada. Neste prisma, o ser humano não passa de um composto químico orgânico, de um animal mais evoluído. Não há nenhuma questão substancialmente distintiva em relação às outras espécies. Como ser apenas biológico, um dia morrerá e sumirá. Na verdade, o homem é considerado mero produto da matéria, uma insignificante engrenagem que faz parte de um todo abstrato, porém onipotente, chamado "natureza", com suas forças irracionais e impessoais. Sua inteligência e sua razão são impotentes para enfrentar ou compreender as circunstâncias pelas quais vive.

Não é espantoso observar que as filosofias modernas, ainda que prometam a liberdade, neguem o indivíduo? A própria individualidade não passa de um efeito acidental das circunstâncias. Ela é sempre produto do meio, da genética, da sexualidade, das forças de produção econômica, da coletividade, da estrutura cultural, social e política ou da matéria. Em outras palavras, o homem não é livre. Sua liberdade e existência perdem-se num complexo arbitrário de fatores que não consegue perceber conscientemente. O homem é considerado figura amorfa de mais variados determinismos. Contudo, essa perspectiva tem uma contradição fatal: só os seus defensores conseguem perceber conscientemente essas influências. O que, na prática, confirma categoricamente a autonomia da consciência.

A consequência da negação de Deus na história é a negação da unidade existencial do homem como ser revestido de essência. Se a moral, a cultura, as idéias, o acúmulo de conhecimentos, a filosofia, o direito e a própria história são apenas meros fragmentos existenciais dos homens que não se comunicam entre si, logo, essa realidade histórica vivida pela espécie humana não possui unidade, nem coerência. Para quê guardar o passado, se a vida só é eterno presente, eterna temporalidade? Para quê preservar a civilização, se ela não tem continuidade em seus legados? Se não há Deus na história, toda a moral, todo o conhecimento e toda a civilização se diluem em caprichos e paixões irracionais de uma época. A realidade ontológica do homem na história se perde num emaranhado de existências sem qualquer propósito, sem qualquer correlação, sem qualquer nexo de causalidade.

Não é por acaso que o senso de moralidade definhou muito no século XX. A realidade dos campos de extermínio nazistas ou dos gulags soviéticos é a lógica elementar de uma moral utilitária, que não obedece a valores perenes, mas sim a circunstâncias e desvarios políticos. Sem a dignidade inata do homem, sem a lei natural e a transcendência, o indivíduo pode perfeitamente ser uma cobaia de um experimento social ou vítima do extermínio. O propósito de sua existência não é intrínseco à transcendência ou permanência. Depende dos caprichos de uma época, das convenções do momento, das paixões e opiniões massificadas de uma ideologia ou credo político.

Falou-se de transcendência. Sem ela, o homem não tem a perspectiva adequada para hierarquizar os valores e as relações das coisas no universo. Não tem a faculdade nem mesmo de pensar na ciência. Até porque as noções de ato, potência, da causalidade e seus efeitos não podem ser compreendidas dentro de uma ordem arbitrária e irracional. A confusão mental da atualidade é crer que a ciência possa substituir a filosofia, a metafísica, a teologia e outras demais formas de conhecimento. Na prática, a própria ciência se autodestrói. Vira um mito, uma mistificação esotérica.

E a abolição da verdade? É surpreendente pensar que os intelectuais, filósofos e ativistas queiram revogar a distinção básica entre verdade e erro, quando na prática, não conseguem desvinculá-la do dia a dia. É possível viver sem confiar na verdade? É possível fundamentar qualquer tipo de conhecimento no ceticismo e no agnosticismo absolutos? É possível viver sem confiança? Imaginemos uma pessoa não confiar no seu vizinho, no que lê, no que faz ou no que acredita? Isso é humanamente possível sem causar degeneração na consciência? A própria pregação em favor do ceticismo e agnosticismo absolutos implica uma crença numa verdade, ainda que contraditoriamente a negue. De fato, os céticos confiam demais no seu ceticismo, ainda que seu método, na prática, possa entrevar o raciocínio. É um estranho excesso de fé no nada. A negação prévia da verdade pode se tornar negação também da realidade. O cético, como um sofista, nega a verdade pela inépcia ou pela covardia de buscá-la.

Aristóteles já dizia que uma das faculdades mais profundas do homem é o saber. O saber que nasce de um assombro, de uma contemplação da realidade ao seu redor. Toda filosofia de ceticismo é uma negação do assombro pela indiferença. A negação da verdade e o relativismo implicam transformar todo o conhecimento humano numa mentira conveniente. Então, não haverá verdades propriamente ditas, mas disputas retóricas falaciosas e facciosas. Na lógica do relativismo, convencer alguém é mentir melhor do que o outro. Entretanto, será que alguém vive na mentira? Será possível a mentira viver substancialmente na realidade, já que ela pertence a um não-ser, a algo inexistente? Se a mentira conveniente do relativismo fundamenta o discurso moral, político e filosófico, o que se pode esperar disso?

Se ninguém tem compromisso com a verdade, o que resta é a imposição da mentira. Numa situação como esta, qualquer compromisso moral de honestidade já foi jogado na lata do lixo. Se há algo que se pode concluir de uma boa parte das filosofias modernas é a mentira sistematizada, consciente. Dentro do maior século da mentira, o século XX.

Tal sintoma não apenas gera desprezo pela verdade. A consequência mais grave é o ódio até pela realidade. Variados grupos políticos propõem uma modificação radical da realidade, pelos desvarios tirânicos de suas ideologias. Grande parte dos regimes totalitários do século XX tinham este objetivo.

As loucuras atuais do politicamente correto e da engenharia social, visando remodelar comportamentos e pensamentos, são elementos nada desprezíveis do desprezo pela realidade. Uma questão é bastante clara: a realidade não pode ser apagada. No mínimo, negada. No máximo, destruída. E mesmo assim existirá, sob escombros.

O Cristianismo é um das poucas sólidas referências em um mundo cada vez mais confuso, perdido, dominado por credos perversos ou ceticismos vazios. Ao perder a fé em Deus e Jesus Cristo, o Ocidente não está apenas se degenerando. Está literalmente enlouquecendo. A ditadura do relativismo desumaniza o homem. Rebaixa as instituições e a moral. Contamina a verdade de falsidades. Destrona Deus e absolutiza a natureza e o Estado.

Sem Deus, o homem perde o senso da ordem da natureza e a noção da dignidade intrínseca que possui no universo. Sem a verdade, deixa de conhecer a realidade e se perde na escuridão e ignorância. Ou, na pior das hipóteses, enlouquece. E o caminho de tudo isso é a despersonalização, a morte e o aniquilamento. Eis o abismo que espera o Ocidente.

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Imbecis sem Deus

Escrito por Luiz Felipe Adurens Cordeiro | 12 Janeiro 2013
Artigos - Cultura

A estupidez, afirma Voegelin, sempre foi um fenômeno reconhecido pelas civilizações antigas: o nabal (tolo) em hebraico, o amathes (homem irracionalmente ignorante) platônico, o stultus (tolo) de Tomás de Aquino. Todos os três criadores da desordem na sociedade em razão da “imagem defeituosa da realidade” com a qual enxergam a existência.

Qual o objetivo da filosofia política? Segundo o professor Olavo de Carvalho, é o de “iluminar intelectivamente a experiência da ordem (ou desordem) político-social”. E desde os tempos de Sócrates, Platão e Aristóteles o esforço explicativo da filosofia política foi balizado pelas “duas outras ordens que, com ela (com a ordem política e social) compõem a estrutura integral da realidade: a ordem cósmica ou divina (do natural ao sobrenatural) e a ordem interior da alma tal como o filósofo a descobre e a realiza em si próprio mediante a participação consciente na sociedade e no cosmos”.

Nos livros Jardim das Aflições, O Imbecil Coletivo, e em seu site pessoal, o professor Olavo publicou imagem que mostra a articulação das três ordens que compõe a estrutura integral da realidade:

cruz

Uma filosofia política deve, então, estudar e esclarecer o “mundo” humano, mas sem se esquecer, no entanto, do resto da realidade, ou seja, da alma individual, do “mundo” natural e, claro, de Deus.

Não precisamos imaginar o que aconteceria com a análise da política se Deus fosse deixado de lado, pois é exatamente o que acontece no mundo Ocidental desde pelo menos o século XVII. Se nas concepções clássicas e cristã “a substância da ordem consiste na homonoia de seus membros”, ou seja, se os indivíduos “são membros da sociedade na medida em que participam do nous, no sentido clássico, ou do logos, no sentido cristão”, a partir de Hobbes o summum malum substitui o summum bonum divino na hierarquia do ser.[1]

A consequência dessa substituição do summum bonum pelo summum malum é o que Eric Voegelin chamou de “redução ontológica”: numa busca desesperada por peças de reposição para o nous e o logos (tentativa que Voegelin chama de “sucedâneos ontológicos para a ordem”), os “filósofos” foram “resvalando hierarquia abaixo” da estrutura do ser.

Partiram de Deus (concepção clássica e cristã) e aterrissaram de cabeça nos fluidos dos impulsos biológicos (psicologia do inconsciente de Freud), passando pela guilhotina da razão (iluministas),se embrulhando na inteligência pragmática, abraçando a utilidade (John Stuart Mill e utilitaristas), sendo esmagados pelas forças de produção (Karl Marx) e pelos determinismos raciais (Gobineau).

A descrição, análise e preocupação com o fenômeno da “perda de Deus” – e as conseqüências dessa perda – são parte importante das obras de Olavo de Carvalho e Eric Voegelin. Dentre elas está o fenômeno de estupidificação ou idiotização pelos quais passam os indivíduos e sociedades.

Voegelin começa a explicar a estupidez humana com a pergunta: o que é o homem? Segundo o filósofo, duas respostas foram delineadas por duas civilizações que tiveram experiências distintas sobre o que é o homem: as resposta helênica e resposta israelita.

Os filósofos gregos do período clássico experienciaram o homem como sendo um ser constituídos pela razão (nous). Os israelitas, o experienciaram como sendo “o ser a quem Deus dirige a sua palavra, ou seja, como um ser pneumático que está aberto à palavra de Deus”[2]. Na perspectiva greco-hebraica, o homem é, pois, constituído de razão e espírito.

Mas o que significa existir constituído pela razão e pelo espírito, pergunta Voegelin. Significa que, tanto a experiência da razão, feita pelos gregos, quanto a do espírito, feita pelos judeus, mostram que o homem tem uma experiência de si mesmo como um ser que não existe por si mesmo, ou seja, existe em um mundo já dado; mundo que existe “em razão de um mistério”; mistério que é a causa do ser do mundo; mundo do qual o homem é um componente. E o nome dessa causa misteriosa é Deus.

Os conceitos methexis e participatio, grego e latino, respectivamente, significam participação no divino. A primeira é um “sair de nós mesmos em direção ao divino”, à Sabedoria, por meio da razão; a segunda é o “encontro amoroso através da palavra”, do Logos, por meio do espírito, da revelação. E é nessa participação no divino que a dignidade específica do homem reside, conclui Voegelin; nossa dignidade está no fato de sermos “teomórficos” (grego), de sermos a “imagem de Deus” (judaísmo e cristianismo)[3].

A “perda de Deus” é, ao mesmo tempo, uma negação da participação do ser humano no divino. E como é essa participação a constituição essencial do homem, a desdivinização é acompanhada, necessariamente, de um processo de desumanização. Conseqüência de “um fechamento deliberado de si mesmo para o divino”, a desdivinação provoca a “perda da realidade”, já que Deus é o “fundamento do ser”, é a possibilidade de tudo o que existe[4].

Perdida a experiência da realidade divina, do fundamento do ser, os indivíduos e as sociedades tornam-se incapazes de orientar corretamente sua atuação no mundo, tornando-se, assim, estúpidos, imbecis.

A estupidez, afirma Voegelin, sempre foi um fenômeno reconhecido pelas civilizações antigas: o nabal (tolo) em hebraico, o amathes (homem irracionalmente ignorante) platônico, o stultus (tolo) de Tomás de Aquino. Todos os três criadores da desordem na sociedade em razão da “imagem defeituosa da realidade”[5] com a qual enxergam a existência.

Numa aula em que aborda a filosofia de Santo Agostinho, Olavo de Carvalho expressa sua posição sobre o fenômeno da imbecilidade; posição muito similar a de Voegelin:

O ser humano emerge para dentro da vida a partir de um fundo que lhe permanece desconhecido, mas que continua dentro de si como um componente problemático. Então o homem é aquele que se pergunta sobre o seu fundamento. Isto já estava dito nos gregos. Platão colocava que o homem que não tem esta interrogação sobre o fundamento da sua existência era chamado amathes (mathes, da raiz “saber”), o homem sem saber, sem sabedoria. Amathes pode ser traduzido como “homem estúpido” (ou idiota, ou imbecil).

(Quando publiquei um livro chamado O Imbecil Coletivo, todo mundo só pensou que era insulto. Não! O conceito de “imbecil” é um conceito filosófico que tem uma tradição de 2.400 anos. É um conceito perfeito...Não, não estou brincando! É uma coisa perfeitamente delineada, que tem um imensa bibliografia, que vai desde Platão até o século XX, quando se tem estudos sobre isso. Há o famoso estudo de Robert Musil, Über die Dummheit. Dummheit é um palavra até mais...até pelo som se vê. Esse “dum” quer dizer que o sujeito é um negócio fechado, sem nenhum interesse, é maciço. Dummheit só pode ser estupidez maciça. Esse é um livro de trinta páginas, absolutamente maravilhoso, continuação de uma tradição).

Então, quando um filósofo fala da imbecilidade ou da estupidez, ele sabe do que está falando. É um fenômeno gravíssimo da constituição humana que se manifesta pelo desinteresse pelo fundamento. O fundamento é aquilo que está dentro de você e que o transcende, é a parte misteriosa, é o apeíron, o indefinido que está embaixo e dentro de você, e acima também. Quando você se fecha para este fundo, quando não quer mais saber dele, fechou-se só naquilo que constitui você mesmo tal como você está; fechou-se no mesmo. “Mesmo”, em grego, é idios, então você se tornou um idiotes, que é um indivíduo que só sabe do mesmo, que não conhece aquela alteridade, aquele outro, aquele fundamento abissal que existe dentro dele. Só sabe dele mesmo, daquilo que ele mesmo pôs no circuito dele mesmo. Tudo o que constitui sua verdadeira realidade e que vem de fora, vem de cima e vem de baixo, vem do infinito, para ele não existe. Então, é evidente que é um idiota! Ele não sabe onde está![6]

A perda de Deus desorientou tanto a ordem política e social do Ocidente quanto àqueles que deveriam elucidar e explicar essa ordem, ou seja, os filósofos políticos. As tentativas de explicar a mixórdia dos últimos séculos são elas mesmas mixórdias. E assim, montados sob os ombros de falsos gigantes tornamo-nos imbecis sem Deus. Na teoria e na prática.
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